Capítulo 1: O Chiado da Vitrola e o Eco do Sertão
Minha história não começa com papel e caneta, mas com o chiado da agulha no vinil. Nasci no sertão paraibano, em Patos, e a música entrou na minha vida antes mesmo de eu compreender o que era o mundo. Entre os quatro e cinco anos de idade, o centro magnético da nossa casa era a vitrola do meu pai.
Toda semana ele chegava com novidades debaixo do braço — os LPs recém-lançados que ditavam os sentimentos daquele Brasil. Pela sala ecoavam a dramaticidade de Agnaldo Timóteo, as histórias e modas de Sérgio Reis e a força incontestável de Roberto Carlos. Para um menino daquela idade, aquilo não era apenas som de fundo; era feitiçaria pura. Eu ficava hipnotizado, vidrado em cada verso. Em pouco tempo, já não apenas ouvia: imitava, decorava cada palavra e cantava com o peito aberto, acompanhando sem saber o pulsar da música brasileira que ganhava corpo dentro de mim.
Quem primeiro enxergou algo além de uma brincadeira infantil foi o meu tio Fernando. Ele percebeu afinação e brilho onde outros só viam um garoto cantando. E não pensou duas vezes: com apenas cinco anos, me levou para o teste de fogo.
Aos domingos, das dez ao meio-dia, o Cinema Eldorado de Patos virava o coração sonoro da região. Era o programa de calouros mais aguardado da cidade, com músicos ao vivo no palco, plateia atenta e transmissão em tempo real pelas ondas da Rádio Espinharas. Subi ali pequenino, diante daquele auditório imenso e do microfone da rádio. Aquela sensação de cantar com banda ao vivo, sentindo a resposta do público e a reverberação da sala, fincou uma estaca definitiva na minha alma: a música nunca mais me deixaria.

Aos nove anos, a vida me levou do sertão para o litoral, fincando raízes na capital, João Pessoa. Foi nessa época que ganhei meu primeiro violão. Tive poucas aulas formais; a verdade é que o instrumento me chamava pela curiosidade e pelo ouvido. Tornei-me autodidata por pura paixão. A minha verdadeira escola não foram os métodos acadêmicos, mas a convivência na rua, sentado nos bancos de praça do bairro de Miramar, trocando acordes, tirando canções de ouvido e dividindo a tarde com os amigos.
A adolescência bateu à porta trazendo os sonhos à flor da pele e a vontade de encarar palcos maiores. Naquela efervescência cultural de João Pessoa, as matinês do Esporte Clube Cabo Branco eram o epicentro da juventude. Numa dessas tardes, subi ao palco para interpretar sucessos de Roberto Carlos com a banda da casa — nada menos que Os Quatro Loucos, que contava com talentos brutais da música paraibana da época: o violonista e cantor que viria a ser o Zé Ramalho, o baterista Golinha e outros monstros dos instrumentos. Estar ali, dividindo o som com músicos daquele quilate, era ter a certeza de que a arte corria em minhas veias.
Mas a vida nem sempre segue o tempo de uma canção. A juventude arde rápido, e com ela veio uma paixão avassaladora. Casei-me muito cedo, quase saindo da meninice para assumir uma casa. O peso do sustento, o chamado da família e a urgência do cotidiano impuseram um compasso diferente. O violão, aos poucos, viu-se relegado ao canto do quarto; o palco deu lugar ao trabalho, e a sobrevivência falou mais alto do que as melodias.
Capítulo 2: A Fronteira da Saudade e o Despertar da Canção
O casamento precoce não resistiu à pressão dos anos imaturos e logo ruiu. O desmoronamento veio acompanhado de uma ferida profunda que o tempo custaria a cicatrizar: tive que partir com o peito despedaçado, deixando para trás minha filha com apenas um ano de vida. Sem estabilidade, sem chão e sem condições financeiras de criá-la comigo naquele instante, precisei engolir o orgulho e aceitar deixá-la sob o amparo dos avós maternos. Era a decisão mais dura da minha vida, mas eu precisava recomeçar do zero para tentar construir um destino.
Coloquei a dor na mala e parti para o extremo norte, a milhares de quilômetros de casa: Manaus. No coração do Amazonas, vivi dois anos de aprendizados severos sobre sobrevivência, solidão e amadurecimento forçado. A distância geográfica, contudo, só dilatava a saudade da minha terra e da minha pequena, e o horizonte profissional parecia não se abrir. Compreendi que o meu lugar não era ali.
Ao retornar para a Paraíba, encontrei um país mergulhado em incertezas e tempos difíceis. Mas foi no reencontro com os velhos amigos que o milagre adormecido aconteceu. Nos fins de semana, as reuniões simples voltaram a acontecer; pegava o violão sem pretensão, dedilhava de leve entre conversas e, de repente, o fogo reacendeu.
Dessa vez, porém, interpretar canções de outros já não bastava para conter o turbilhão que eu havia vivido. A dor da perda, a culpa, a distância, a solidão da selva e a beleza da volta precisavam de voz própria. Decidi que me tornaria compositor. As primeiras letras e harmonias nasceram ali — ainda rústicas, mas carregadas de verdade crua —, ganhando corpo, alma e refinamento ao longo dos anos seguintes.
Capítulo 3: Asfalto Cinza e Encontros do Destino
Em 1989, empurrado pela mesma coragem que move tantos artistas nordestinos, tomei o rumo de São Paulo. A metrópole, no entanto, não estende tapete vermelho a ninguém. Mergulhei de cabeça na noite paulistana, tocando pelos bares da Nove de Julho e do Bixiga, mas o cachê mal cobria a comida do dia. A dureza foi implacável: enfrentei a fome, a penúria e noites geladas tendo escadarias de edifícios como único teto e a capa do violão como travesseiro.
Foi nesse calvário de asfalto que o destino operou um de seus encontros mais improváveis. Conheci Edson Trindade — o homem por trás de clássicos imortais da alma brasileira, eternizados na voz de Tim Maia. Edson, contudo, já não desfrutava das glórias do passado; afundado no alcoolismo e enfrentando uma fase devastadora da vida, viu em mim não apenas um colega de ofício, mas um esteio humano, um ombro amigo em meio ao abandono.
Em 1990, Edson me convidou para vir com ele para o Rio de Janeiro. Acolhemo-nos mutuamente na tempestade: eu lhe oferecia apoio e sobriedade nos momentos mais difíceis, e ele me abria as portas de uma nova paisagem cultural. Os caminhos logo exigiram rumos distintos, mas, antes da separação, ele me levou até Maricá.
A cidade litorânea me abraçou de forma definitiva. Ali finquei minhas raízes, transformando a calmaria e as lagoas no meu porto seguro e na morada final onde a minha música, enfim, encontrou um lar para florescer.
Capítulo 4: Sob o Céu e o Sol de Maricá
Em Maricá, a vida começou a me devolver em afeto tudo o que a estrada havia me cobrado em sacrifício. Encontrei amigos que rapidamente se tornaram irmãos de alma e de caminhada. Foram eles que me abriram as primeiras portas para a noite maricaense.
Logo eu estava na ativa, violão em punho, marcando presença nos palcos que definiam a boemia e o encontro da época: o lendário restaurante Tamarindos, o Chão de Estrelas, o Degrau, o Sangrias e tantas outras casas espalhadas por diferentes bairros. Aos poucos, meu nome ganhou força no boca a boca; tornei-me um artista local concorrido, daqueles que enchiam os bares e faziam o público cantar junto do início ao fim da noite.

Viver intensamente a noite e a cultura de Maricá também me fez enxergar de perto as contradições políticas e sociais da cidade: os artistas da terra lutavam diariamente para ter voz, espaço e respeito nos palcos públicos para garantir o pão com dignidade. Mas, se a política colocava barreiras, a própria Maricá oferecia a redenção. Com seus cartões postais deslumbrantes, o encontro das lagoas com o mar, o vento litorâneo e a sua luz única, a inspiração transbordava. Era impossível não compor.
Foi tomado por essa devoção que nasceu a canção que se tornaria uma espécie de hino afetivo: "Sob o Céu, Sob o Sol de Maricá". Na sequência veio o convite explícito em "Eu Vou pra Maricá". E, prestando tributo à rebeldia e genialidade de Raul Seixas, criei com veia sarcástica e visceral "Mamãe, Estou Maluco Outra Vez!". Cada letra, melodia e arranjo eram guardados, lapidados e maturados na calma dos dias, esperando o instante exato de vir ao mundo.
O ápice dessa jornada veio nos estúdios sagrados da música brasileira. Entrei no templo da antiga RCA Victor — atual Companhia dos Técnicos —, no Rio de Janeiro, para registrar o meu primeiro disco: Sob o Céu, Sob o Sol de Maricá, uma obra com 14 faixas autorais. Tive o privilégio de estar sob a direção artística sensível do saudoso Claudinho Guimarães (in memoriam) e cercado por mestres reverenciados da MPB, produtores de renome como Rildo Hora, Rick Ferreira e Roberto Marques, além de instrumentistas primorosos como o tecladista Mizael da Hora e uma constelação de músicos de primeira linha.
O lançamento não poderia ter tido palco nem data mais simbólicos: aconteceu em agosto de 2014, em plena celebração da Padroeira de Maricá, diante do meu povo e da cidade que me adotou. Foi um estrondo de emoção e reconhecimento. Aquele menino que olhava a vitrola girar no sertão de Patos e o rapaz que dormira ao relento nas escadarias de São Paulo estavam, finalmente, eternizados em disco, canção e história.
Capítulo 5: Prefiro Minha Paz — A Inovação e o Futuro
O tempo continuou seu curso, trazendo consigo provas severas para a humanidade e para a classe artística, como os dias silenciosos da pandemia. Mas quem traz a composição na veia não consegue calar a alma. Mesmo isolado, continuei compondo, transformando as incertezas do mundo em novas poesias e melodias.
Com a evolução dos tempos, vi surgir na velocidade da luz uma nova revolução tecnológica: os estúdios de Inteligência Artificial aplicados à música. Longe de enxergar isso com receio, vi uma oportunidade de exploração criativa. Decidi fazer uma experiência: peguei uma composição minha e utilizei essa tecnologia de ponta como ferramenta de trabalho em estúdio.
O impacto foi surpreendente. A harmonia entre a essência da minha canção e as possibilidades infinitas dessa nova era me fascinou de tal maneira que assumi um novo papel com entusiasmo: o de Produtor Musical do meu próprio projeto. As minhas composições ganharam arranjos, timbres, interpretações e vida através dessa ferramenta inovadora, sem jamais perderem a verdade e o sentimento com que foram concebidas no violão.
O fruto dessa união entre a tradição de uma vida inteira dedicada à música e o futuro da produção sonora é o que vocês têm diante de si hoje: o álbum "Prefiro Minha Paz".
Cada faixa reflete a serenidade conquistada após tantas batalhas, a calma de quem encontrou seu lugar no mundo e a coragem de um eterno aprendiz que nunca parou no tempo. Espero, do fundo do coração, que essas canções toquem vocês tanto quanto tocaram a mim ao serem criadas.
Agradeço imensamente pelo carinho, pela presença e pelo apoio constante de cada um de vocês nessa caminhada musical.

